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O dilema do uso de máscara: afinal ela pode prejudicar o aprendizado na infância?

Priscilla Milnitz Pereira

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Conversamos com diversos profissionais ligados ao desenvolvimento e educação infantil e eles foram unânimes em concordar que a aquisição da linguagem e de habilidades cognitivas e emocionais, sofreram prejuízo no decorrer desses dois anos de pandemia.

 

 

O assunto é polêmico e tem sido objeto de estudo de profissionais ligados à área da saúde e educação ao longo desses mais de dois anos de pandemia. Mas afinal, o uso de máscaras pode mesmo atrapalhar o desenvolvimento das crianças? A pediatra Marcela Braz garante que sim e, tais efeitos vão além da aquisição da linguagem na escola, mas podem impactar negativamente também na diminuição das capacidades cognitivas e emocionais da criança.

“A infância representa um momento crítico do desenvolvimento cerebral e o uso de máscaras dificulta não só o entendimento do que é falado, como a percepção e demonstração de emoções”, frisa ela, referindo-se às expressões não verbais, cujo papel nessa fase é fundamental. Segundo a médica, crianças precisam de “espelhos”/modelos de linguagem para imitar – sejam pais, professores ou colegas – e o uso das máscaras traz prejuízos nesse sentido.

Ainda é cedo para afirmar com exatidão quais exatamente serão esses prejuízos, mas Marcela destaca que eles surgirão a médio e longo prazo, ainda que algumas mudanças já possam ser consideradas. Com as medidas de distanciamento impostas pela Covid-19, ocorreu uma diminuição considerável das trocas e interações sociais e isso já reflete em traços de personalidade que se tornaram mais fortes, como a timidez. “Algumas crianças aproveitaram para se esconder atrás das máscaras e agora, com a flexibilização, estão tendo dificuldades em se readaptar”, lamenta.

A gestora escolar, Elenir Cardozo concorda com esse posicionamento e observa uma dificuldade maior de fala entre os alunos das séries iniciais, seja por medo ou vergonha de se expressar ou ainda pelo fato de a máscara prejudicar a audição e, consequentemente, a reprodução dos sons. A falta desse contato maior entre alunos e professores/diretores também trouxe efeitos negativos. “Sem ter acesso às suas expressões ficava complicado saber o que estavam sentindo. Antes disso observávamos muito o comportamento das crianças e um sorriso mais triste já era motivo para chamarmos para conversar e tentar entender o que precisavam. Com a pandemia essa relação foi muito prejudicada”, explica.

Agora que as coisas parecem estar voltando ao normal, o objetivo é minimizar esses efeitos, retomando conteúdos sempre que necessário e fazendo um acompanhamento adequado, já que, além das máscaras, as aulas remotas e híbridas também tiveram um impacto negativo. O índice de crianças não alfabetizadas no segundo ano cresceu e quem trabalha em escola teve vários feedbacks contrários às aulas online. “Houve, sim, muitos estudantes que não faziam as atividades propostas porque consideravam chato e ruim estudar remotamente, mas chamávamos os pais para conversar e cada escola criou critérios e técnicas para fazer o melhor, ainda que todos tenhamos sido pegos de forma inesperada”, diz.

Felipe Buttke, professor de história com especialização em ensino lúdico, foi outro que sentiu falta desse contato olho a olho com os estudantes e concorda que o uso de máscaras prejudicou especialmente a faixa etária que vai dos quatro aos oito anos de idade, que é quando os sentidos começam a se desenvolver, a alfabetização ocorre e os laços afetivos são criados pelos pequenos. No entanto, ele nota também uma interferência desse processo nos anos seguintes. Dando aula atualmente para turmas do sexto ao nono ano, sente falta de uma boa base nas séries anteriores, prejudicadas por esses dois anos de ensino remoto.

“O nosso desafio agora vai além de trabalhar o currículo de cada matéria. Estamos investindo em trabalhos interdisciplinares para ajudar os alunos como um todo e também os professores de outras matérias, trabalhando por exemplo, a língua portuguesa enquanto ensino história”, exemplifica. Ele acredita que o momento requer esse esforço coletivo e, mais uma vez, os professores terão que se reinventar para entregar os conteúdos.

O lado positivo é que com a curva descendente de casos e sem o colapso de leitos nos hospitais, dificilmente o governo precisará voltar atrás da decisão de retirar as máscaras. Entretanto, a pediatra Marcela Braz ressalta que alguns cuidados devem ser mantidos e levados para sempre, como a higiene das mãos e o cuidado ao proteger o rosto na hora de espirrar. Ela também incentiva a imunização contra a Covid-19 para todas as crianças acima dos cinco anos de idade e encerra dizendo que o momento ainda requer cuidado e que alguns casos devem ser analisados individualmente. “Há crianças com uma condição de risco maior, com doenças crônicas e imunodeficiências. Caso os pais se sintam mais seguros, elas podem continuar frequentando o ambiente escolar de máscara. Tudo vai do bom senso de cada um”, declara.

 

Folha

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